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A história de quatro irmãos de Palmares que conquistaram uma nova família

Imagem de uma família. A mulher com uma menina no colo e o homem abraçando outras três crianças em pé.

“É amar incondicionalmente. É querer proteger e cuidar. É saber que existe alguém que depende de nós e que estamos ali para educar e aprender com eles. É como se os filhos nos completassem”. A declaração é da agente comunitária de saúde Janaína Barbosa, 27 anos, ao ser questionada sobre o que significa ser mãe. Ela e o marido, o autônomo Ismael do Nascimento, 28 anos, adotaram quatro irmãos, Patrícia, Caroline, Djailton e Djair, com 4, 6, 8 e 9 anos, respectivamente, que viviam numa instituição de acolhimento no município de Palmares e, agora, moram em Caruaru com o casal.

O primeiro contato visual com as crianças foi por meio de uma rede social. A imagem dos quatro irmãos aparecia num post do Facebook da Comissão Estadual Judiciária de Adoção (Ceja/PE) do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) e chamou a atenção do casal, que já estava inscrito no Sistema Nacional de Adoção (SNA). “Quando vimos a foto das crianças foi como se já tivéssemos a certeza de que eles eram nossos filhos. Então decidimos enviar um e-mail para a Ceja e dizer que estávamos inscritos no Sistema Nacional de Adoção”, relembra Janaína Barbosa.

A foto dos irmãos estava visível para os adotantes através do Projeto Família: um direito de toda criança e adolescente desenvolvido pela Ceja. A ação viabiliza a busca ativa de crianças e adolescentes sem pretendentes no SNA. Desde 2014, o TJPE, através de resolução, estabeleceu o prazo de 30 dias para os juízes, a partir da inserção da criança ou do adolescente no SNA, concluírem a busca de pretendentes para, em caso negativo, encaminharem a documentação necessária para a Ceja.

A Comissão instalou o serviço Busca Ativa no site do Tribunal de Justiça, que contém a lista das crianças e dos adolescentes inclusos no projeto e que, portanto, já são consideradas como possíveis adoções tardias. A lista é atualizada mensalmente pela equipe técnica da Ceja. As fotos são compartilhadas também por meio do Facebook. A ferramenta foi instalada em novembro de 2016 e já conseguiu 93 adoções.

Para a secretária executiva da Ceja, juíza Hélia Viegas, o desenvolvimento do projeto, por meio do qual crianças e adolescentes podem ser vistos por mais pessoas, tem sido muito importante na construção de famílias. “Permitir que a criança da instituição de acolhimento possa ser vista e encontrada como parte de uma família é muito gratificante. Acho que adoção representa um encontro de pessoas que se reconhecem”, analisa.

A decisão de Janaína e Ismael de se tornarem pais por meio da adoção foi tomada em 2017. Janaína conta que tentou ser mãe biológica por quatro anos com a ajuda de tratamento médico, mas não conseguiu. “Após esse período, passamos cerca de um ano amadurecendo a ideia de sermos pais através da adoção e começamos a pesquisar sobre o assunto e a conversar com algumas pessoas que tinham sido pais dessa forma”, revela.

Em maio de 2018, o casal decidiu ir à Vara da Infância e Juventude e em junho do mesmo ano entregou a documentação para a habilitação como adotantes. A habilitação foi deferida em fevereiro de 2019 e o casal inscrito no SNA, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Inseridos no Sistema, viram o perfil do Facebook da Ceja e, com a convicção de que as crianças na foto eram seus filhos, alteraram o perfil dos adotandos no SNA. Tinham optado por grupo de até dois irmãos com faixa etária de até seis anos, mas ampliaram o perfil para grupo de no máximo quatro irmãos com idade de até 9 anos.

O primeiro encontro com as crianças aconteceu numa instituição de acolhimento de Palmares junto à assistente social Magaly Barreto, da Vara Regional da Infância e Juventude da 6ª Circunscrição, no município. Janaína lembra o que sentiu e como as crianças reagiram ao conhecê-los. “Senti um misto de emoções. Felicidade, medo, até porque tudo que é novo e traz mudanças provoca um pouco de medo e nos faz refletir. Estávamos muito ansiosos com esse encontro. No primeiro instante, as crianças estavam meio tímidas, caladas, quase não falavam, porque aquele momento também era novo para elas, e também carregavam o trauma de uma devolução, mas logo depois começaram a interagir com a gente. Procuramos brincar e conversar o que facilitou a aproximação e a conquistar a confiança delas. Logo estávamos bem entrosados. Tivemos alguns encontros e a cada encontro tínhamos mais certeza desta adoção”, conta.

A certeza da adoção, a motivação e a maturidade emocional para se tornarem pais foram pontos observados pelo juiz Flavio Krok, titular da Vara Regional da Infância e Juventude da 6ª Circunscrição. “Todos os relatórios produzidos no curso do processo foram positivos, assim como as informações repassadas pela equipe técnica durante o acompanhamento do estágio de convivência. A nossa percepção inicial quanto à maturidade e à estabilidade emocional do casal foi confirmada, o que levou a uma avaliação positiva da família, que está construindo uma relação baseada no amor, na dedicação e no respeito à história de vida. Era um processo bem delicado, principalmente em virtude da história de vida das crianças”, afirma. O juiz lembra do dia em que a sentença da adoção foi proferida, em 31 de janeiro de 2020, e revela que para ele foi o momento mais marcante. “Ao final da sentença, as crianças e os pais cantaram, juntos, uma música religiosa, o que emocionou a todos”, diz.

Com a família reunida, Janaína lembra bem os primeiros meses de tudo, quando começaram a desenvolver o papel de pais ainda no estágio de convivência. Ela conta que pediu a ajuda ao Grupo de Apoio a Adoção e Apadrinhamento de Caruaru (GAAP) para buscar orientações sobre como proceder da melhor forma possível. “No início foi um pouco mais difícil. Primeiro teve aquele período de “lua de mel”, depois eles deram um pouco mais de trabalho, mas o Grupo de Apoio à Adoção nos ajudou bastante nesse período de adaptação, conversando e dando orientações, afinal nós também estamos aprendendo a ser pais. Com as orientações, entendemos que além de muito amor e carinho, dar limites e estabelecer rotina também são fundamentais. Logo, colocamos em prática e tudo começou a se encaixar melhor. Além disso, fizemos alguns acordos para nossas atividades diárias, como escovar os dentes após acordar, trocar de roupa e arrumar a cama antes de fazer qualquer outra atividade, guardar os brinquedos após brincar, etc.”, revela.

O pai, Ismael do Nascimento, conta como é a rotina hoje e como são os filhos no dia a dia. “Eles já sabem a rotina da casa. Muitas vezes nem precisamos falar, que eles já seguem a rotina normalmente. São crianças felizes e saudáveis, com toda energia para ‘serem crianças’. Gostam muito de brincar de correr, de esconde-esconde, de jogar bola e de ir à praça. Sempre que possível procuramos brincar junto com eles, que adoram brincadeiras em que todos participem, principalmente aquelas que envolvem corridas. São bastante carinhosos, gostam de abraçar e beijar, e contam tudo o que acontece com eles”, relata.

Com o passar do tempo, as diferenças de personalidades foram ficando cada vez mais visíveis aos pais. Hoje, é possível identificar como cada um age e o que mais chama atenção em cada um deles. “Djair é mais calado, é leal, ele demonstra muito cuidado com os irmãos, gosta muito de ajudar as pessoas em casa. Djailton é o mais agitado, está sempre fazendo alguma coisa, é bastante curioso, gosta de montar e desmontar as coisas. Caroline é muito prestativa, organizada, tem muito cuidado com as coisas dela, é persistente, não desiste fácil. Patrícia, sem dúvida, é a mais ciumenta, é muito carinhosa e amorosa, no entanto é a mais brava, demonstra com muita intensidade os sentimentos, interessada em aprender tudo”, descreve Ismael.

Temperamentos diversos, energia igual, segundo Janaína. Em época de pandemia pelo novo coronavírus ficar em casa com todos exige criatividade e organização. “São crianças bem ativas por isso precisamos mantê-los ocupados para que não fiquem estressados dentro de casa. Procuramos dividir bem o tempo. Pela manhã deixamos que assistam um pouco de TV e brinquem com os brinquedos. À tarde procuramos fazer alguma atividade com eles. Às vezes conseguimos incluir a avó materna ou a tia nessas atividades. Como as professoras estão mandando tarefas para fazer em casa, aproveitamos para fazê-las e acaba um participando, de alguma forma, da atividade do outro. No mais, nós explicamos através de materiais lúdicos, fornecidos pelas professoras, o porquê que não podemos sair, que não podemos ir à praça, que eles gostam tanto, e nem ir para casa dos outros familiares, e eles compreendem bem”, afirma.

Ao ser questionada se valeu a pena a espera pelos filhos, Janaína responde: “Sim, muito a pena. Não conseguimos imaginar nossas vidas sem eles. Eles realmente foram feitos para serem nossos filhos e nós os pais deles. Nós os adotamos como filhos e eles a nós como pais".

No mês em que se comemora o Dia Nacional de Adoção, (25/5), o TJPE deu início a uma série de matérias, que contam histórias de adoções no Estado 

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Texto: Ivone Veloso   |  Ascom TJPE
Imagem: Cortesia