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Amor sem barreiras: Justiça estadual celebra mais uma história de adoção de criança com deficiência

 

O dia 4 de agosto é uma data marcante na vida da psicanalista e professora Flávia Regina Leite de Araújo, de 44 anos. Neste dia, através de sentença proferida pela Vara da Infância e Juventude de Jaboatão dos Guararapes, Flávia passou a ser mãe de Ana Clara, que, em outubro de 2019, com apenas um ano e quatro meses de vida, foi acolhida pelo Conselho Tutelar do município, tendo sido entregue voluntariamente por seus genitores, que alegaram a falta de condições para a promoção dos cuidados com o bebê. Esta adoção poderia ser mais uma, entre as muitas adoções efetuadas no Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), não fosse o fato de Ana Clara ter sido diagnosticada, em seu nascimento, com encefalopatia crônica, paralisia cerebral, disfagia, entre outros problemas de saúde.

“Amor e desprendimento da nomenclatura ‘deficiência’, bem como a certeza de que todos os seres humanos são únicos e magníficos em sua singularidade”, esses foram os sentimentos narrados por Flávia Regina ao acessar o Facebook da Comissão Estadual Judiciária de Adoção (Ceja/PE) do TJPE e ali encontrar o perfil de Ana Clara. “Assim que vi o perfil dela, eu me apaixonei, foi amor à primeira vista. Vi naquela foto a imagem da filha que eu tanto esperava e desejava”, afirmou.

Com a adoção, Ana Clara ganhou o nome da mãe e passou a se chamar Flávia Valentine. A sua foto estava inserida no Programa Busca Ativa, projeto da Ceja que tem como objetivo dar visibilidade para as crianças e adolescentes inscritos no Sistema Nacional de Adoção (SNA), cujos pais foram destituídos do poder familiar, e que enfrentam dificuldades no tocante à inserção em novas famílias. A ferramenta, instalada em 2016 no site do TJPE, possui atualmente 71 crianças e adolescentes inscritos, aguardando adoção, e atua nas 77 instituições de acolhimento de Pernambuco. A lista é atualizada mensalmente e as fotos são compartilhadas nas redes sociais da Comissão.

De acordo com relatórios psicossociais e pedagógicos da equipe da Vara da Infância e Juventude de Jaboatão dos Guararapes, Flávia Valentine, em razão das demandas de saúde, possuía uma rotina bem específica em âmbito institucional, com acompanhamento fisioterapêutico, respiratório, motor, fonoaudiológico, terapêutico ocupacional, neurológico e nutricional por profissionais da Policlínica da Criança e do Adolescente de Jaboatão dos Guararapes, do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (IMIP) e do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Nada disso, porém, desanimou Flávia Regina. “Embora o perfil já antecipasse algumas de suas patologias, nenhuma delas foi empecilho para que eu entrasse em contato com o órgão responsável. Vi naquela criança tão linda suas inúmeras possibilidades de crescimento e melhora. O seu olhar intensificava tudo o que eu almejava alcançar juntamente com ela”, afirma a nova mãe.

A titular da Vara da Infância e Juventude de Jaboatão dos Guararapes, juíza Christiana Caribé, ressalta que, em meio à atual situação de pandemia do novo Coronavírus (Covid-19), foi muito importante o apoio da Ceja no sentido de localizar uma família para Flávia Valentine. De acordo com a magistrada, a unidade judiciária estava há mais de dois meses realizando buscas, sem sucesso, no SNA; e, em apenas 24 horas de realizada a exposição da foto de Flávia nas redes sociais da Ceja, mais de 20 interessados enviaram e-mail para a Vara da Infância e Juventude de Jaboatão.

“Esta adoção quebra muitos paradigmas. Foi extremamente gratificante atuar para encontrar uma mãe afetuosa, além de muito disposta e preparada para atender às necessidades dessa criança. Através de videoconferências, Flávia foi sendo orientada sobre os cuidados que deveria ter com a criança, e sempre demonstrou disponibilidade, além de muito amor, tendo sido escolhida exatamente por mostrar que sabe como lidar com os desafios inerentes ao cuidado de uma criança com deficiência”, pontua a juíza.

A Vara da Infância e Juventude de Jaboatão dos Guararapes concedeu a guarda provisória de Flávia Valentine no dia 2 de junho deste ano. A audiência de instrução foi realizada por videoconferência no dia 4 de agosto, ocasião em que foi prolatada a sentença concedendo a adoção. Ainda de acordo com a juíza Christiana Caribé, todo o processo de adoção foi concluído em meio à pandemia, com acompanhamento e audiências tendo sido realizados por meios tecnológicos, demonstrando, assim, a viabilidade dos processos digitais também no âmbito da Infância e Juventude. Para Flávia Regina, a experiência foi ímpar e todo o processo de adoção foi especial e tratado com muito zelo. “Eu sou muito grata pelo pronto acolhimento e acompanhamento impecável da Justiça pernambucana. Sou grata por esse encontro que a tanto almejava. Hoje vivo a doce realidade de um sonho”, afirma.

Ainda sobre a experiência de buscar o caminho da adoção, e sobretudo de ter decidido ser mãe de uma criança com deficiência, Flávia afirma que a adoção é desprendimento de pré-julgamentos. Para ela, adotar não significa fazer caridade; adotar é doar-se, é uma via de mão dupla, é uma troca de sentimentos nobres e genuínos. “A adoção se constrói com muita responsabilidade e empatia. A minha filha não faz uso de sonda há três meses, e se alimenta muito bem. Estou com ela há cinco meses, e diariamente eu presencio inúmeras conquistas. Falamos uma com a outra através do olhar, do abraçar, do sorrir, do cuidar. Temos uma rotina que, sem dúvida, exige um esforço maior, mas ao final do dia, eu só penso em uma palavra: gratidão”, conclui.

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Texto: Micarla Xavier | Ascom TJPE
Foto: Arquivo pessoal