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Ana Beatriz: um ano após o encontro com a família

Ana Beatriz com um vestido e um diadema de flores

Após um ano com a família, Ana Beatriz vem melhorando gradativamente

Mais uma brincadeira preferida, outra palavra no vocabulário, um novo movimento, um olhar mais preciso de percepção do que está acontecendo a sua volta. Cada pequena evolução de Ana Beatriz*, 8 anos, é motivo de muito orgulho para a mãe, a enfermeira Tatiane Almeida*. Ela encontrou a filha por meio de uma postagem em rede social da ferramenta Busca Ativa, no início de 2017. Na imagem, veiculada no Facebook, Ana aparecia com um grande sorriso, sendo descrita como uma criança que tinha sofrido violência doméstica e, por isso, apresentava sequelas cognitivas e motoras, mas era uma guerreira e vinha melhorando gradativamente. “O sentimento que tive de forma imediata foi de reencontro. Sabia que era a nossa filha e a minha única certeza era a necessidade de buscá-la o mais rápido possível”, revela Tatiane.

Um ano após sair de São Paulo para encontrar a filha em uma instituição de acolhimento em Petrolina, no Sertão de Pernambuco, Tatiane relata como está a convivência com Ana e o que mudou na vida da família com a nova integrante. “Ela teve uma boa evolução. Lembrando sempre que o desenvolvimento de uma criança especial é muito lento, e que, cada avanço, é um alívio diário na conquista da independência. Acho que o maior desafio vencido foi a retirada da fralda. A caminhada melhorou bastante, o tronco está mais firme, e o braço esquerdo ganhou uma leve melhora. A compreensão e a coordenação motora também evoluíram. Todos ficam impressionados com as mudanças dela, e os profissionais de saúde acreditam que um dia ela poderá ser alfabetizada, mas sinceramente vivo um dia de cada vez. Na verdade, é uma menina que tem uma força de vontade incrível”, descreve.

Os avanços são resultado de uma rotina intensa de recuperação que inclui sessões de fisioterapia e fonoaudiologia, aulas de natação, consultas médicas, oficina de inclusão social, aulas na escola regular, aulas extras em uma sala multifuncional no colégio e iniciação esportiva no Centro Paralímpico Brasileiro. “Apesar de longe da nossa casa, esse centro é referência no esporte adaptado para pessoas especiais da América Latina. Vamos duas a três vezes por semana e percebo uma evolução ainda maior de seus movimentos”, avalia Tatiane.

Ana Beatriz, o irmão e as mães

Bia com as mães, Lucy Castro e Tatiane Almeida, e o irmão Vinícius morando em São Paulo

Ana Beatriz hoje tem uma família formada pelas mães Tatiane Almeida e a técnica de enfermagem Lucy Castro* e pelo irmão Vinícius*. A ideia de ser uma menina partiu do irmão. O perfil traçado no Cadastro Nacional de Adoção (CNA) pelas mães foi uma criança, do sexo feminino, de até sete anos, sem opção por etnia e sem muitas restrições em relação a problemas de saúde, a deficiências físicas ou neurológicas, mas que permitissem às mães continuarem trabalhando. Bia, como é chamada por todos, se encaixava neste perfil. Após o estágio de convivência, o processo de adoção foi concluído em janeiro deste ano.

“Quando chegou, tive certeza que nos reconhecia como sua família. Apesar de ter muita dificuldade na fala, via pelo carinho que demonstrava no olhar e nos gestos. A percepção desse amor só aumentou. Hoje me vejo sorrindo com as brincadeiras que faz. Antes deixava ela com os brinquedos e ela permanecia sentada. Hoje, quando vejo ela sai caminhando, molha o banheiro todo, dizendo que está lavando a mão, pega o pente faz a maior bagunça no cabelo e diz que está penteando, tira os sapatos do irmão e coloca nos pés dela. E o irmão tem o maior orgulho, faz questão de apresentá-la a todos os amigos e professores e a inclui em todas as brincadeiras. É uma criança muito feliz, amada e cuidada na sua família, como qualquer outra criança deveria ser”, observa Tatiane.

Sobre os desafios enfrentados por Bia diariamente, a sua outra mãe, Lucy Castro, expõe o preconceito que percebe pela condição de saúde da filha. “Nós entendemos o tempo dela, mas tem pessoas que não enxergam que se trata de uma criança especial, e isso é difícil. Nem sempre ela tem um atendimento ou um tratamento de saúde que consideramos ideal, mas nós brigamos pelos direitos dela e não deixo ninguém diminuir minha filha. Ela é um presente nas nossas vidas e aprendemos muito com sua superação, bom humor, alegria de viver. É um amor verdadeiro que não pede nada em troca”, pontua.

Questionada se em algum momento pensou em desistir por conta das dificuldades enfrentadas na busca pela independência da filha ou se repensou a escolha de uma criança especial, Lucy responde que jamais se arrependeu. “Em certas dificuldades no pós-adoção, algumas pessoas, em situações de desespero, acham que não deveriam ter adotado, que não vão dar conta, mas isso nunca nos ocorreu com a Ana Beatriz. Como posso desistir da minha filha? Além de tudo, é muito fácil ser mãe de Bia. Ela é tranquila, carinhosa, obediente, é a princesa que Deus nos deu. É a alegria da nossa família”, resume.

Assim como Bia, mais 19 crianças e adolescentes encontraram suas famílias por meio da ferramenta Busca Ativa inserida no Projeto Família, em novembro de 2016. A ferramenta permite mais visibilidade a crianças e adolescentes aptos à adoção, sem pretendentes no CNA, por meio de redes sociais. Para a secretária executiva da Comissão Estadual Judiciária de Adoção (Ceja/PE), juíza Hélia Viegas, a iniciativa nas redes sociais tem sido muito importante na construção de famílias. “Permitir que a criança da instituição de acolhimento possa ser vista e encontrada como parte de uma família é muito gratificante. Acho que adoção representa um encontro de pessoas que se reconhecem”, analisa.

O coordenador da Infância e Juventude de Pernambuco, desembargador Luiz Carlos Figueiredo, destaca a relevância da maior visibilidade a criança que vive no abrigo. "A multiplicidade de iniciativas que vêm sendo implementadas por diversas varas, além das ações promovidas por grupos de apoio à adoção têm feito a diferença. São iniciativas que contribuíram para acelerar o trâmite processual para adoção e tem intensificado a propagação de informações que desmistificam a adoção de crianças mais velhas", observa. 

Projeto Família: um direito de toda criança e adolescente – A ação viabiliza a busca ativa de crianças e adolescentes sem pretendentes no CNA. Desde 2014, o Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), através de resolução, estabeleceu o prazo de 30 dias para os juízes, a partir da inserção da criança ou do adolescente no Cadastro Nacional de Adoção, concluírem a busca de pretendentes para, em caso negativo, encaminharem a documentação necessária para a Ceja realizar a busca ativa. Com essa proposta, a Comissão instalou o serviço Busca Ativa no site do Tribunal de Justiça, que contém a lista das crianças e dos adolescentes inclusos no projeto e que, portanto, já são consideradas como possíveis adoções tardias. A listagem é atualizada mensalmente pela equipe técnica da Comissão. Por meio do Projeto Família, 101 criança e adolescentes foram adotados.

*Nomes autorizados pelas mães
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Texto: Ivone Veloso | Ascom TJPE
Imagens: Acervo pessoal