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Artigo: Madre Teresa no cânone dos santos

Nesse domingo (5/9), durante as celebrações do Jubileu da Misericórdia em Ano Santo Extraordinário, o Povo de Deus em praça pública, a de São Pedro, no Vaticano, e toda a comunidade eclesial testemunham a canonização da madre Teresa, de Calcutá, dezenove anos depois de sua morte (05.09.1997). 
 
A religiosa, missionária da caridade, nascida Anjezë Gonxhe Bojaxhiu, em Skopje (capital da atual Macedônia), será confirmada santa, como padroeira dos mais pobres e dos incapacitados e com festa litúrgica em dia 5 de setembro de cada ano.
 
Desde a primeira canonização formal, a de Ulrich, bispo de Augsburgo (890-973) pelo papa João XV, em 03.02.993, à mais recente, a de Estanislau Papczynski, da Polônia (1631-1701), pelo Papa Francisco, no último dia 05 de junho, a honra dos altares tem sido elevada para mais de dez mil santos.
 
Designadamente, os três últimos pontificados multiplicaram os decretos de santidade, a partir da simplificação processual de canonização, ocorrida em 1983, durante o papado de João Paulo II; tendo este reconhecido mais de quatrocentos e oitenta (480) santos. 
 
Seus sucessores, Bento XVI admitiu quarenta e quatro (44) outros e Papa Francisco já realizou mais de dez canonizações. Somente em uma delas, em data de 12.05.2013, oitocentos (800), foram declarados santos, os chamados "mártires de Otranto", italianos assassinados durante o cerco dos otomanos àquele vilarejo indefeso (1480) por recusarem aceitar a fé muçulmana. 
 
Bem de ver que antes das canonizações formais, todos os mártires do cristianismo antigo foram considerados santos, porque morreram como resultado de sua fé, dispensando-se, por isso mesmo, o requisito da verificação de milagres. 
 
Nos Atos dos Apóstolos, menciona-se o protomártir (primeira testemunha) Estevão, da instituição dos diáconos (fundada por Pedro, o Primeiro Papa), morto por lapidação (apedrejamento) e cuja execução é assistida por Saulo (São Paulo), antes do seu caminho a Damasco. Ali também são referidos, dentre outros, os martírios de Matias, que substituíra Judas Iscariotes, no Colégio dos Apóstolos, logo após a ascensão de Jesus Cristo, e o de Tiago, o Maior, padroeiro da Espanha. Muitos mártires, todos santos. Cristãos primitivos, foram eles mártires e santos, por difundirem a mensagem do Evangelho, ou seja, a boa nova.  Ao predicarem o Evangelho, deram eles o seu testemunho de fé, daí importando lembrar que, em grego, "mártir" significa testemunha.
 
A conceituação da santidade será, portanto, sempre admitida a dizer que santos são "aqueles que se consagram a Deus". 
 
A Igreja canonizou todos os papas até 530, e a memória da Igreja tem sido preservada, desde os apóstolos e os mártires, pela causa dos santos, cuja regulamentação maior foi feita por Sisto V (1585-1590) ao tempo que instituiu a Congregação dos Ritos. Antes disso, as canonizações, por cerca de mil anos, tiveram base fundante em resultados da aclamação popular, sob controle informal dos bispos, sequenciando-se uma primeira regulamentação, em 1.170, com Alexandre III (1159-1181).
 
Após as disposições decisivas de Sisto V, as canonizações receberam novas regulações com os Papas Urbano VIII (1623-1644) e Benedito XIV (1740-1758), este considerado o fundador da história do direito eclesiástico que, por seu sentido mais abrangente, situa-se além do direito canônico propriamente dito.
 
É dentro dessas últimas regulações que surge a figura do "promotor geral da fé", havido como "o advogado do diabo", por seu dever de ofício de investigar a capacidade meritória do candidato a santo. Aliás, tudo lembra a clássica obra, de igual título, do escritor australiano Morris West (1959) quando apresenta o personagem padre Braise Meredith politizando o processo de santificação. Pela constituição apostólica "Divinus Perfectionis Magister" (1983), de João Paulo II, aquele é finalmente substituído por prelados-relatores incumbidos de averiguar virtudes e milagres.
 
No ponto, duas fases se instalam, em sucessivo, nos atuais processos de canonização, (i) a diocesana, quando são reunidas as provas necessárias à abertura do procedimento, nas próprias dioceses dos indicados e (ii) a romana, perante a Congregação para as Causas dos Santos, discatério da Cúria Romana, quanto ao exame das três etapas que compreendem o rumo à santificação, a de venerável, pelas virtudes reconhecidas; a de beato, quando às virtudes segue-se comprovado, pelo menos, um milagre e finalmente a de santo, quando, necessariamente, comprova-se um segundo milagre.
 
Assim, universaliza-se mais uma santa em proclamação reservada à Santa Sé e com o exclusivo poder papal de declara-la, desde Alexandre III (1710). 
 
Heroína da fé cristã, madre Teresa, beatificada (19.10.2003) pelo milagre de cura da indiana Monica Berra, é agora santificada pelo milagre de "cura extraordinária" do brasileiro Marcilio Haddad Andrino, ocorrido em Santos (SP), em 2008.
 
A prática de virtudes heroicas, a vida humanitária e caridosa, o trabalho missionário e a fé operativa como "fontes inexauríveis" de sua operosidade de amor ao próximo, inscrevem, para sempre, Madre Teresa no cânone dos santos. 
 
Mais uma narrativa hagiográfica, nossas orações ao alto.
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Jones Figueirêdo Alves – desembargador decano do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) e mestre em Ciências Jurídicas pela Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa (FDUL)