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Conhecer Virtual: iniciativa do TJPE aproxima crianças, adolescentes e adotantes

Casal italiano de adotantes sentados em um sofá
Graças ao Conhecer Virtual, casal italiano Ida e Ciro teve maior contato com os irmãos brasileiros Alisson e Maria Alice

Casados há 12 anos, a vendedora Ida, 39 anos, e o policial Ciro, 41, que nasceram e vivem na Itália, sempre quiserem aumentar a família. O filho biológico, que era a primeira opção do casal, não veio, e eles começaram a conhecer histórias de adoção. Perceberam, então, que não importa a forma como o filho chega à família, mas o amor que se sente ao reconhecê-lo. Foi o que aconteceu ao verem por fotos os irmãos Alisson, 9 anos, e Maria Alice, 4. "Senti amor à primeira vista", revela Ida. A impressão de que as duas crianças pertenciam à família virou certeza, segundo eles, ao falarem com elas por meio de vídeo. "A emoção foi tão forte, que sufocou as palavras. Ficamos nos olhando no primeiro momento, sem comunicação, o impacto é muito grande. Aqueles meninos eram o sonho da nossa família. Soubemos ali que eram nossos filhos", diz Ciro.
 
A reunião virtual, que uniu as crianças, que viviam em um abrigo na Comarca do Recife, com o casal de italianos, foi possível por meio do Projeto Conhecer Virtual. O programa está entre os nove selecionados da Infância e Juventude de Pernambuco para concorrer ao 13º Prêmio Innovare, em dezembro deste ano. Desenvolvido pela Coordenadoria da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça de Pernambuco (CIJ/TJPE), desde dezembro do ano passado, a iniciativa realiza encontros por videoconferências entre crianças e adolescentes e os pretendentes à adoção. O principal objetivo é construir um maior vínculo afetivo recíproco dos envolvidos no processo antes do estágio de convivência obrigatório à ação.
 
Para o juiz Enrico Duarte, titular da 2ª Vara da Comarca de Limoeiro e responsável pelo processo de adoção do casal de irmãos, o Projeto Conhecer Virtual acaba aumentando o interesse dos adotantes pelos adotados e vice-versa. "No momento em que eles se comunicam já estabelecem uma familiaridade maior, e as crianças acabam desenvolvendo mais segurança para passar pelo estágio de convivência e a posterior adoção", revela. Segundo o magistrado, as crianças, que são do município de Limoeiro, e estavam num abrigo do Recife há um ano e sete meses, foram direcionadas para a adoção internacional porque não conseguiram ser adotadas por casais brasileiros. "Quando se trata de crianças mais velhas, ainda é difícil conseguimos viabilizar uma adoção nacional. Esta questão está mudando, mas ainda é um processo lento de modificação do perfil requerido. O que importa é que haja afeto entre os envolvidos e percebi isso ao presenciar a comunicação entre eles", avalia.
 
De acordo com a psicóloga da Comissão Estadual Judiciária de Adoção do Estado de Pernambuco (Ceja/PE), Maria Tereza Vieira, a construção desse vínculo inicial pode contribuir para reduzir a possibilidade do surgimento de um sentimento de rejeição ou estranhamento ao adotado ou ao adotante num segundo momento. "Antes, os adotantes só podiam ver as crianças ou adolescentes através de fotos na etapa anterior ao estágio de convivência. Não tinham oportunidade de conhecer a forma como eles se expressam e um pouco da sua personalidade. Esse conhecimento prévio e a familiaridade construída a partir disso vai ajudar muito na convivência posterior", analisa.
 
Há duas semanas passando pelo estágio de convivência com as crianças, em Recife, o casal de italianos revela que o período de adaptação não tem sido fácil, mas a satisfação do convívio supera qualquer dificuldade. "Estamos começando a nos adaptar à língua, à cultura e aos costumes deles, e eles aos nossos, mas esse desafio não é nada diante de todos os outros que passamos para encontrá-los. É um período normal de adaptação", avalia Ciro. Ele revela que a escolha por um casal de irmãos foi a companhia que um pode oferecer ao outro. "Achamos importante a convivência e o companheirismo que existe na relação natural de irmãos", observa Ida. Ao completar 30 dias de estágio de convivência, o casal conclui a adoção e pretende voltar à Itália com os filhos.
 
Iniciativa – A videoconferência é uma oportunidade não só para esse primeiro contato entre os inseridos no processo, mas também para esclarecer dúvidas sobre os procedimentos referentes à adoção, repassar informações relevantes sobre as crianças e orientar os adotantes sobre como proceder no período de convivência familiar. Além disso, a ação permite que os profissionais do TJPE, que irão acompanhar o estágio de convivência, possam conhecer os pretendentes antecipadamente. O sistema para a realização da videoconferência foi implantado pela Secretaria de Tecnologia da Informação e Comunicação do Tribunal (Setic), utilizando o Programa Lync, tecnologia que assegura o absoluto sigilo na transmissão de dados.
 
A ideia de implantar o projeto em Pernambuco surgiu a partir do sucesso da iniciativa obtido no Paraná e na Bahia. Nesses dois estados, a videoconferência é usada exclusivamente para adoção internacional, utilizando-se o sistema de conversação à distância Skype. O Conhecer Virtual expandiu a iniciativa também para a adoção nacional, sendo pioneiro nesse sentido, através do Núcleo de Apoio à Comissão Estadual Judiciária de Adoção (Ceja/PE). Até o momento, foram realizadas seis videoconferências, sendo cinco para adoções internacionais e uma para adoção nacional.
 
O coordenador da Infância e Juventude do TJPE, desembargador Luiz Carlos Figueiredo, avalia que as reuniões por videoconferência têm tido resultados muito positivos e que deveriam ser expandidas para outros estados brasileiros. "É uma iniciativa que buscar assegurar o direito à convivência familiar de crianças e adolescentes. Tenho esperança de que esse projeto possa ser ampliado para todo o país por meio da Corregedoria Nacional de Justiça", afirma o magistrado.
 
A primeira videoconferência do Projeto Conhecer Virtual aconteceu, no dia 7 de dezembro de 2015, entre cinco irmãos, com idade entre dois e 11 anos, da Comarca de Paulista, e três casais de italianos, residentes no país de origem. Os três casais de pretendentes à adoção se conheciam e informaram o desejo de manter a convivência dos cinco irmãos na Itália. Segundo a pedagoga da Ceja/PE, Priscila Barcelos, eles assumiram o compromisso de assegurar o contato entre os irmãos, e devem remeter relatórios semestrais por dois anos.  "Eles mostram que vêm mantendo esse contato dos irmãos e conquistaram uma boa adaptação das crianças à Itália", observa.
 
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Texto: Ivone Veloso | Ascom TJPE
Foto: Jean Oliveira | Agência Rodrigo Moreira