Últimas Notícias em destaque

Voltar

Em ação da 1ª Vara de Violência contra a Mulher do Recife, moradoras do Ibura compartilham histórias de superação

Mulheres conversando sobre violência contra a mulher
Mulheres participam de encontro do Projeto Caminhos, promovido pela 1ª VVDFM da Capital / Foto desfocada para proteção de participantes
 
"Depois que eu me separei, eu aprendi a rir novamente." O desabafo de Carla*, 35 anos, ocorreu pouco mais de uma hora após o início de palestra do Projeto Caminhos, realizada na última semana de julho, no Recife. Antes de criar coragem e falar sobre a rotina de violência junto ao ex-companheiro, de quem vem se escondendo, a doméstica ouviu histórias comuns a tantas mulheres: "‘Vá para casa e troque de roupa', era o que ele falava", disse uma das participantes. "Por que eu tenho de fazer sexo, se não estou com vontade? Eu sou obrigada?", indagou outra.
 
O Projeto Caminhos é uma ação desenvolvida pelo Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) através da 1ª Vara de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher da Capital (1ª VVDFM) e pelo Departamento de Polícia da Mulher (DPMUL) com o apoio do Centro de Referência Clarice Lispector e da Casa da Mulher Metropolitana Júlia Santiago, ambos Secretaria da Mulher do Recife, e do Núcleo de Apoio à Mulher do Ministério Público (NAM – MPPE). A atividade visa a orientar as vítimas de violência doméstica e familiar sobre a Lei Maria da Penha, os direitos que elas possuem na Justiça e os trâmites legais existentes após o registro da ocorrência policial. A reunião no Ibura tratou dessas questões com moradoras da comunidade.
 
Carla* foi à sede da Federação acompanhada da mãe e da filha mais velha. Entre sorrisos e lágrimas, ela viu no relato de outras mulheres a oportunidade de conseguir ajuda e, antes de compartilhar a própria experiência, buscou forças em histórias como a da costureira Joana*, 63 anos. "Eu dependia do meu marido. Ele me esculhambava, batia em mim, mas eu não saía dessa situação por conta das crianças. Era muita humilhação", relembrou. Com cinco filhos e 15 netos, dona Marlene contou com apoio da mãe e de um ex-patrão para conseguir um terreno, construir uma casa e sair de um cotidiano de violência. "Hoje, graças a Deus, sou uma vitoriosa. Hoje eu posso dizer que eu venci", declarou.
 
Quem também serviu de inspiração para Carla* foi outra costureira, dona Paula*. Aos 49 anos, ela fez inúmeros questionamentos a respeito da relação entre homens e mulheres. "O mesmo direito que o homem tem, nós temos. Por que o papel de cuidadora só cabe à mulher? Por que só a mulher cuida da casa? Por que só a mãe leva ao médico? Por que só a mulher vai para a reunião escolar? Eu passei por todas as formas de violência que se possa imaginar e eu venci. Eu busquei forças para hoje estar aqui", afirmou Paula*. 
 
Três mulheres em pé debatem a questão da violência contra a mulher
Psicóloga Edinalva Caitano, assistente social Débora Figureau e delagada Marta Rosana
 
No encontro, a equipe da 1ª VVDFM abordou os tipos de violências física, moral, psicológica, sexual e patrimonial sofridas com base nos relatos das presentes, como lembrou a psicóloga Edinalva Caitano. "As falas apresentadas pelas mulheres, que participaram da apresentação do projeto Caminhos no Ibura, foram impactantes e mobilizaram a todos os profissionais envolvidos, levando-nos a refletir sobre a dura realidade vivenciada por estas e tantas outras mulheres que sofrem violência cotidianamente."
 
A mobilização a que se refere a psicóloga da 1ª Vara de Violência contra a Mulher da Capital teve relação direta com a doméstica Carla*, que, após hesitação inicial, foi enfática nas declarações. "Hoje eu ainda vivo escondida e com medo. Quando eu saí de casa, ele andava com um matador do lado. Eu não tinha paz e não podia ficar assim. Tenho medo, mas posso repetir: Depois que eu me separei, aprendi a sorrir novamente", lembrou, emocionada. Diante da situação, a delegada Marta Rosana, parceira da atividade, dirigiu-se especialmente à empregada doméstica e a todas as presentes: "Você precisa denunciar. Não viva desse jeito. Não deixe que ele imponha isso a sua vida". Maria foi orientada sobre os serviços a que tem direito e encaminhada à ajuda profissional.
 
Para a assistente social da 1ª Vara do Recife, Débora Figureau, o trabalho em conjunto é uma forma de fortalecer a rede de enfrentamento à violência contra a mulher. "Estar no Ibura, com outros órgãos públicos e diante de mulheres tão fortes, porque foi isso que eu vi, mulheres fortes, me mostrou a importância de irmos às comunidades escutá-las. Percebi também que nós profissionais, quando atuamos juntos, fazemos essas mulheres se sentirem seguras e acreditarem, cada vez mais, que podem contar com a Lei Maria da Penha", enfatizou.
 
Com a realização de palestras em bairros onde há alto índice de registros de agressões, o Projeto Caminhos busca orientar as mulheres, esclarecendo sobre o tema violência, a legislação e a rede de enfrentamento à violência e de proteção à mulher, estimulando-as a denunciarem as agressões sofridas ou presenciadas. O encontro no Ibura foi o terceiro realizado nas comunidades do Recife. Antes, a intervenção passou pelos bairros de Brasília Teimosa e Santo Amaro. Também em julho, delegadas e agentes da Polícia Civil da 1ª Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher do Recife (1ª Deam) participaram de uma oficina sobre o Projeto Caminhos.
 
*Os nomes das entrevistadas foram trocados.
 
Notícias relacionadas
 
 
..........................................................................................................
Texto: Francisco Shimada | Ascom TJPE
Fotos: Jean Oliveira | Agência Rodrigo Moreira