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Grupos de Apoio à Adoção atuam como importantes aliados na formação de novas famílias

Grupo de Estudos e Apoio à Adoção de Recife (GEAD) durante caminhada pela adoção no ano passado

Auxiliando os pretendentes no processo de preparação para adoção e posteriormente no período de adaptação e convivência das famílias, o estado de Pernambuco possui atualmente nove Grupos de Apoio à Adoção (GAAs). Pioneiro no estado, o Grupo de Estudos e Apoio à Adoção de Recife (GEAD) foi idealizado em 1995 pelos então professores da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) Luiz Schettini Filho, Eneri Albuquerque e Dolores Coutinho, pais adotivos diante da necessidade de conhecer mais sobre o tema.

A ideia inicial foi fazer um grupo de estudos sobre adoção e encontrar orientações e apoio no processo educativo de seus filhos, já que não havia muita literatura disponível na época acerca do tema, além de enfrentarem diversos mitos e preconceitos na sociedade.  Há 25 anos o GEAD atua em Recife e recebe mensalmente uma média de 50 a 70 famílias. Existe também em Recife o Núcleo de Apoio no Pós-adoção (Napa), que atua há dois anos e atualmente atende cerca de 30 famílias que já passaram pelo processo de adoção e continuam promovendo apoio e troca de experiências.

Os GAAs são associações sem fins lucrativos, formados em sua maioria por voluntários, que atuam na promoção do direito à convivência familiar e comunitária de crianças e adolescentes em situação de acolhimento institucional e familiar. Em Pernambuco, eles estão localizados nos municípios de Recife, Olinda, Paulista, Jaboatão dos Guararapes, Belo Jardim, Gravatá, Vitória de Santo Antão, Caruaru e Garanhuns. Confira os telefones e endereços AQUI.

A psicóloga e diretora de Relações Institucionais do GEAD Recife, Suzana Schettini

Conversamos com a psicóloga e diretora de Relações Institucionais do GEAD Recife, Suzana Schettini, que esclarece alguns pontos principais sobre a atuação dos Grupos de Apoio à Adoção (GAAs) nos processos adotivos:

Como se dá a atuação dos grupos de apoio à adoção? Eles possuem algum vínculo formal com as Varas da Infância?

Os grupos trabalham como parceiros colaboradores das Varas da Infância, auxiliando para que tenhamos cada vez mais adoções de sucesso e que possamos conseguir famílias para aquelas crianças com perfis mais difíceis. Nossa grande missão é trabalhar pela garantia do Direito à Família, tão mencionado nas leis, mas que na prática ainda há muita defasagem. Quando comecei a trabalhar em adoção, há 21 anos, o perfil máximo que a gente conseguia era que as pessoas adotassem crianças de até 2 anos de idade. A partir daí já era considerada adoção tardia. Com um trabalho incansável, derrubamos muitas fronteiras e o perfil atualmente está bastante ampliado. A maioria dos pretendentes já considera com muita facilidade uma criança de cinco, seis anos de idade, apesar de que isso ainda não é o ideal. Paradoxalmente, a sociedade acredita que os grupos de apoio à adoção foram criados para procurar crianças para pais adotivos. Os pretendentes, inicialmente, acreditam que vão frequentar o grupo para procurar seu filho. Na verdade, o trabalho dos grupos ocorre no sentido inverso. Nós procuramos uma família para crianças que já existem.  Isso que nós chamamos de cultura de adoção. Em Recife nós somos parceiros da Vara, não temos um convênio formal. Participamos das atividades propostas, colaboramos nos eventos quando solicitado e atuamos na preparação dos pretendentes.

De que forma as pessoas podem ter acesso ao grupo? Os encaminhamentos são feitos por meio das Varas de Infância ou a apresentação é voluntária?

As pessoas podem ir voluntariamente conhecer o trabalho e participar das reuniões. Normalmente elas procuram o grupo quando começam a pensar sobre adoção. Em Recife existe uma sistemática um pouquinho diferente. Atualmente a Vara da Infância exige a participação em quatro reuniões do grupo de apoio à adoção antes de ingressar com os documentos para o processo de habilitação no Sistema Nacional de Adoção (SNA). Normalmente as pessoas vão pedir informações sobre os documentos necessários para a habilitação e tomam conhecimento de que precisam frequentar quatro reuniões do GEAD antes de ingressar com essa documentação. A maioria das Varas já está encaminhando os pretendentes aos grupos porque eles estão compreendendo, depois de muitos anos do nosso trabalho, a grande colaboração dos grupos no trabalho de preparo dos pretendentes e também acompanhamento no pós-adoção. Estão realmente sugerindo aos pretendentes que participem dos grupos.

Como você vê a importância de se passar por um GAA antes e depois de adotar?

Como militante da adoção, como mãe adotiva e como psicóloga eu diria que necessariamente os adotantes devem passar pela assistência de um grupo. É lá que eles terão a oportunidade de trabalhar com profundidade todas as questões referentes à adoção. Apesar de as varas da infância oferecem cursos de preparo, não são o bastante para que os pretendentes possam assimilar todas as nuances e peculiaridades da trajetória adotiva. O que faz uma grande diferença no sucesso da adoção é quão preparados estão esses pretendentes, para que possam ingressar nessa caminhada com a segurança necessária. Nos grupos nós nos aprofundamos nas questões, as famílias se reúnem e trocam experiências e informações, vão compartilhando suas dificuldades e crescendo em conjunto. A gente percebe que com a frequência nos grupos as pessoas aos poucos vão flexibilizando seus perfis, porque começam a perceber as possibilidades de adoções diferentes daquilo que eles estavam imaginando. Começam a ver outros perfis a partir de pessoas que adotaram crianças maiores ou grupos de irmãos. Os grupos de apoio atuam como um espaço gestacional. Costumamos dizer que os filhos adotados não vêm do corpo, mas eles precisam ser incorporados.

Por que é necessária uma preparação diferenciada na adoção de crianças maiores? Quais os pontos mais críticos nesse tipo de adoção?

As crianças maiores vêm com mais experiências de vida, com uma história de sofrimento e muitas questões que precisam ser levadas em conta. Não que um bebê também não traga sua história, pois eles não tiveram experiências uterinas positivas e certamente já sofreram rejeição dentro do útero. Muitas vezes são mães que não queriam aquela gestação ou foram abandonadas pelos seus parceiros. Mas quando a criança é maior, ela já viveu presencialmente determinadas coisas, então possui marcas. Como essas crianças maiores têm referências errôneas de que os adultos abusam, negligenciam ou maltratam, elas precisam aprender a confiar novamente nos adultos e isso não é tão imediato. É preciso ter muita calma, tranquilidade e muito entendimento do tempo que a criança vai precisar para adaptar-se à nova família.  Muitas vezes os pretendentes fantasiam histórias de filhos ideais, de convívio e de família ideal, e isso não existe. O vínculo é um processo que requer uma construção. Não se deve imaginar que a criança vai automaticamente esquecer sua vida anterior. Os pais adotivos serão a continuação da história da criança e ela vai ter que elaborar sua primeira história. Às vezes elas precisam concluir o luto daquela família biológica. São muitos fatos que precisam ser considerados na adoção de crianças maiores. Eu costumo dizer que quando a criança entra na família adotiva é como se ela atravessasse uma ponte. Geralmente ela precisa desaprender muitos comportamentos e aprender a cultura da nova família. É necessário muito amor incondicional, muitas manifestações de afeto. Os pais não podem ser rígidos demais, inflexíveis ou impacientes demais. Nessa questão os grupos promovem o contato com outras famílias que estão com as mesmas dificuldades e os pais conseguem enfrentar as demandas dessas crianças, acompanhando o seu processo educativo com maior tranquilidade.

Como evitar que a mudança do perfil escolhido pelo adotante para o de crianças maiores ou grupo de irmãos acabe resultando numa escolha precipitada e na consequente devolução dessas crianças?

Sempre recomendamos que a mudança de perfil só aconteça quando as pessoas realmente estiverem preparadas, após uma reflexão profunda e que nunca seja feita para agilizar a adoção. Apesar de trabalharmos isso no grupo, e acredito que nos cursos das varas também, às vezes a gente percebe que a ansiedade fala mais alto e muitos adotantes acabam elevando a idade da criança ou aumentando a quantidade de crianças, na tentativa de agilizar a chegada do filho. Essa questão da ansiedade é realmente um fator de muito risco e alertamos aos pretendentes que antes de mudar o seu projeto de adoção para uma outra faixa etária, você precisa trabalhar o luto daquele projeto anterior. É possível adotar crianças e adolescentes de qualquer idade, desde que os pretendentes estejam preparados para tal, pois os pais não podem exceder o seu limite psicológico. Tem pessoas que não são abertas para adoção em qualquer faixa etária. Algumas só têm condições psicológicas de adotar uma criança de até 3 anos, outras de até 5 anos. Há pessoas que têm limites para duas crianças ou tem flexibilidade e disponibilidade afetiva para três crianças. Isso vai depender de cada um. É importante que realmente as adoções sejam feitas com consciência e observando-se os limites psicológicos, avaliando se tenho realmente condições de dar àquela criança ou adolescente tudo que ela precisa, se eu tenho condições de atender a todas as suas necessidades.

Existe um período ideal de acompanhamento para o processo de preparação inicial e do pós-adoção?

A partir do momento que eu decido adotar, eu tenho que começar a me preparar para a adoção. Esse preparo deveria ser um processo continuado, até a chegada da criança. Para isso existe a preparação formal, oferecida pelas Varas da Infância, que pode ser complementada com a frequência nos GAAs, com leituras específicas, vídeos, filmes, relatos e depoimentos. Eu fico muito angustiada quando percebo que as pessoas comparecem às quatro reuniões determinadas pela Vara e não aparecem mais. Só compreendem a importância de estar frequentando um grupo quando chegam as crianças e os surgem as dificuldades. Por isso a importância de se aprender antes determinadas coisas, porque já se sabe quais hipóteses poderão enfrentar. Isso não quer dizer que não possa haver surpresas, pois cada criança é um ser individual e vem com a sua história. No pós-adoção também se busca apoio porque, por mais preparados que os pais estejam, até então tudo foi apreendido no plano teórico. A chegada da criança inaugura os pais, é um momento de autodescoberta e as situações vão acontecendo no cotidiano. Quando nós nos tornamos pais, junto com os nossos filhos, nós reeditamos o nosso próprio processo educativo, então muitas questões podem surgir.

*Suzana Sofia Moeller Schettini é mestre em Psicologia Clínica, psicoterapeuta de crianças, adolescentes e adultos. Atua como diretora de Relações Institucionais do GEAD Recife e diretora de Relações Públicas da ANGAAD - Associação Nacional de Grupos de Apoio à Adoção.

Os Grupos de Apoio à Adoção são vinculados à Associação Nacional de Apoio à Adoção – ANGAAD

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Texto e entrevista: Amanda Machado |  Ascom TJPE
Fotos: Cortesia