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Pais falam sobre o exercício da paternidade durante a pandemia

A paternidade hoje pode ser dupla, socioafetiva, por adoção ou opção exclusiva e conquistada por meio do Judiciário. Com algumas decisões relevantes relacionadas ao exercício da paternidade, o Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) tem referendado o direito de ser pai, filho, avô, embasado sobretudo nos vínculos afetivos. Afeto traduzido principalmente no estar presente. Em época de pandemia pelo novo coronavírus, as relações entre pais e filhos ficaram ainda mais intensas pautadas no isolamento social necessário para conter a proliferação do vírus. Para além dos desafios, que sobrepõem a imagem do porta-retrato habitual formado por pai, mãe e filhos, esses pais contam como têm sido a experiência de conviver tão de perto com seus filhos e como têm enfrentado situações até então desconhecidas.

Pai solo de José Mateus, de 14 anos, o designer Charles Leite fala o que sentiu, no primeiro momento, ao se deparar com essa nova realidade. “O distanciamento e o isolamento social advindos com a pandemia, em princípio foi bastante aterrorizador. Eu conheci algumas pessoas que não resistiram à Covid-19, e essa realidade enalteceu muitos dos meus medos reprimidos. Como já habitualmente convivemos apenas eu e meu filho em casa, e nossa experiência costuma ser bem harmônica, percebi a intensificação da convivência de forma muito positiva, pois contribuiu para o reforço na construção de nosso vínculo”, conta.

A necessidade de uma rotina mais próxima nesse período não tem sido encarada como algo muito diferente da realidade já vivenciada pelos dois no dia a dia antes da pandemia. A relação estreita faz parte do que ele considera pré-requisito essencial para ser pai efetivo. “Não consigo entender outra forma de efetivamente ser pai, se não for através da presença. A minha própria experiência de vida, com um pai que após separar da minha mãe, não se fez presente no meu dia a dia, me fez sentir que não há outra maneira de sermos pais. Ainda é muito comum vermos pais, que após separação ou divórcio, abandonam afetivamente seus filhos. Muitas vezes estes pais não sabem os hábitos de seus próprios filhos, nem acompanham suas rotinas. Por isso, compreendo que todo pai "de verdade" é participativo, presente, afetivo e cuidador”, considera. 

Charles conta também o que levará de positivo dessa fase e as lições aprendidas pelos dois. “De certo que a pandemia nos aproximou, pois não sendo possível o convívio presencial com outros, além de nós mesmos, tive que buscar alternativas para nos mantermos bem e saudáveis, e muito disso passou a envolver a divisão de tarefas domésticas, além dos cuidados com os nossos pets e dos cuidados pessoais um com o outro - eu cortei os cabelos dele e ele cortou os meus. Enfim, toda uma série de ações, que normalmente terceirizamos, mas vem sendo executada por mim e ele numa grande demonstração de aproximação. Disso tudo, vejo que consegui construir uma relação parental com meu filho muito respeitosa”, avalia.
 
Para o designer, os maiores desafios desse período são administrar a falta que a socialização faz para o filho e também para ele, o medo do contágio e a fragilidade que vislumbrou perante a doença. Ele relata como tem vivenciando esses momentos de angústia. “Eu venho auxiliando emocionalmente ele a atravessar esse difícil período pandêmico, pois já demostrou imensa saudade da rotina de socialização e convivência na escola com os colegas e amigos. Tivemos noites chorosas de saudades dos nossos familiares, em especial de primos e primas da faixa etária dele. Neste ponto, a tecnologia nos ajuda, permitindo encontros, papos, conversas, mas não substitui a proximidade e ele expressa essa saudade frequentemente, mas compreende que a realidade não nos permite essas aproximações. Eu fui acometido pela Covid-19 em abril, fiquei num confinamento no meu quarto em casa. Ficamos por duas semanas afastados, de vez em quando ele queria estar mais próximo, mas não permiti e eu via nas expressões faciais dele o temor por mim. Foi um dos momentos mais difíceis em minha vida. Por sorte ou destino, eu tive sintomas brandos, mas igualmente temi bastante um possível agravamento da minha condição de saúde. Porém, fiz um grande esforço para que ele não percebesse. E, depois, me recuperei”, revela.


 O designer Charles Leite e o filho José Mateus, hoje com 14 anos

A paternidade veio para Charles por meio da adoção. Ele conta que a primeira vez que lhe surgiu a ideia da adoção, foi há uns dez anos, quando muitos dos seus amigos e colegas, homens e mulheres em idade reprodutiva, começaram a gerar filhos. “Naquela época, eu percebi claramente que alguns deles tinham ou faziam projeções sobre a filiação biológica que eu nunca tive. O desejo de ser pai, veio crescendo e evoluindo comigo, desde que me tornei adulto e mais consciente da minha própria história. Após a separação dos meus pais, eu fiquei sob a guarda da minha mãe e deixei de conviver e ter contato regular com meu pai. Creio que essa consciência de ter vivenciado, de certa forma, um abandono, me tornou empático às histórias e vivências de crianças e adolescentes que vivem, institucionalizados, em casas de acolhimento. Eu tinha certeza de que seria pai para, de alguma maneira, ressignificar a minha própria história”, observa.
 
O processo de habilitação para adoção começou em julho de 2017, por meio da inscrição no antigo cadastro de adotantes, hoje Sistema Nacional de Adoção (SNA). Ao mesmo tempo, Charles se inscreveu no projeto Pernambuco que Acolhe, desenvolvido pela Comissão Estadual Judiciária de Adoção (Ceja TJPE), que tem como objetivo proporcionar a crianças e adolescentes que vivem em casas de acolhida, oriundos das diversas comarcas do estado, a construção de ligações externas e uma melhor integração na sociedade, por meio do apadrinhamento afetivo, material ou profissional. Através da equipe da comissão, Charles conheceu o Programa Anjo da Guarda, desenvolvido pela juíza Christiana Caribé, da Vara da Infância e Juventude de Jaboatão dos Guararapes, que tem o mesmo propósito direcionado a crianças e adolescentes do município.

Através do Programa Anjo da Guarda, Charles conheceu todas as casas de acolhimento da Comarca de Jaboatão dos Guararapes. Em novembro de 2017, após não ter sido possível localizar pretendentes no cadastro de adoção, Charles foi convidado a ser padrinho afetivo de Mateus, iniciando o processo de vinculação entre eles. Em dezembro do mesmo ano, manifestou o desejo de adotá-lo, dando início ao estágio de convivência. “Descobri que ele estava destituído do poder familiar e que não tinham encontrado uma família substituta pelo CNA. Nesse momento, como já estava inscrito no Cadastro, pleiteei a adoção junto à unidade judiciária da comarca. O processo tramitou rapidamente, dando início ao estágio de convivência, de 90 dias, em dezembro como presente antecipado de Natal”, recorda.

Para além dos desafios com a criação de José Mateus, Charles diz ter vivenciado alguns episódios de preconceito por ser pai solteiro e pela adoção. “Apesar das famílias hoje terem estruturas mais fluídas, que vão além da formação pai, mãe e filhos, ouvi principalmente perguntas em relação à paternidade adotiva de uma criança mais velha ou porque adotar se você pode ser pai biológico e coisas do tipo. Já na escola, tive que solicitar ser incluído no grupo de mães num aplicativo de troca de mensagens. Havia um entendimento bem excludente, que era um grupo para todos os alunos que conviviam com mães. Eu que tive que buscar me inteirar, para explicar para o grupo que meu filho, por exemplo, não tinha mãe. Enfim, eu identifico claramente o preconceito, mas o associo à falta de informação. Compete a mim, sempre que posso, esclarecer. É a estratégia que uso para transformar algo ruim em algo bom”, analisa.

Mailton Albuquerque e Wilson Albuquerque, pais de Maria Teresa, de oito anos, e Teo, com seis anos

Dupla paternidade - Também inseridos numa configuração familiar diversa da habitual, constituída por duas figuras paternas, o casal formado pelo enfermeiro Mailton Albuquerque e pelo empresário Wilson Albuquerque, pais de Maria Teresa, de oito anos, e Teo, com seis anos, vive atualmente novas situações no exercício da paternidade a partir da pandemia. Mailton relata que no quesito proximidade dos filhos não percebeu diferença.

“Optamos por criar nossos filhos sem a assistência de uma terceira pessoa, como uma babá por exemplo. Então as crianças não conhecem outro cuidado que não seja o nosso. Temos uma flexibilidade nas nossas profissões que permitiu isso. Então, continuamos a ter uma relação de convivência familiar intensa em que as crianças já ajudavam nas tarefas domésticas. A mudança percebida na rotina veio da necessidade do ensino a distância para os filhos. Precisamos nos organizar para poder dar um suporte maior nessa parte educacional. Tenho experiência como professor de alunos adultos, que fazem cursos de pós-graduação, e eles não dispersam das aulas, mas as crianças já têm um nível de dispersão maior e fazendo aulas a distância isso fica mais evidente. Precisei aprender a deixá-los mais focados nas aulas e eu passei a admirar muito mais o dom que Deus dá ao educador para fazer com que ele domine uma sala de 21 crianças como é a dos meus filhos”, confessa.

Como profissional da saúde, com doutorado em Epidemiologia, e atuando na linha de frente do combate à Covid- 19, Mailton, que trabalha como enfermeiro no Serviço de Atendimento Médico de Urgência (Samu) do Recife, relata que a mudança na rotina com as crianças veio do medo de ser contaminado e de transmitir o vírus para elas e para o companheiro. “Tive que ter muito equilíbrio emocional para não passar o medo que nós que estamos na linha de frente sentimos porque vemos pessoas realmente morrendo. Por isso montamos toda uma logística aqui em casa de que quando eu chegasse eu entraria por uma área totalmente isolada e quando entro me descontamino para poder entrar em contato com as crianças. Teve um momento que eu pensei que estava com o vírus e me isolei totalmente das crianças, mas nem eu e nem Wilson ou as crianças testamos positivo para Covid – 19 aqui em casa”, conta.

 A história de paternidade de Mailton e Wilson começou em 2012.  Nesse ano, o juiz da 1ª Vara de Família e Registro Civil da Capital, Clicério Bezerra, proferiu sentença favorável ao registro da filha dos dois, então com um mês de vida. Maria Teresa foi gerada através de fertilização in vitro, com óvulo de uma doadora anônima, e a participação de uma prima de Maílton, que carregou a criança no ventre. Como Mailton foi o pai biológico na reprodução assistida, faltava reconhecer a paternidade de Wilson. Foi aí que o casal entrou com o pedido na Justiça, que deferiu a paternidade socioafetiva do segundo pai.

Dois anos após o nascimento de Maria Teresa, o casal repetiu o procedimento de reprodução assistida e teve o filho Teo. A nova experiência contou novamente com a ajuda da prima de Mailton, na gravidez. Nesse caso, o pai biológico foi Wilson, e Mailton conseguiu ser registrado como pai socioafetivo. Pai socioafetivo ou biológico, termos técnicos para Mailton e Wilson, casados há 23 anos, que significam pais efetivos e em tempo integral de Maria Teresa e Teo. A experiência da paternidade ao longo dos anos trouxe para Mailton a constatação de que sua família não difere de qualquer outra. 

“Temos todas as dificuldades na educação de um filho, de compreender as necessidades das crianças. A gente sabe que trouxe eles para o mundo numa configuração diferente, mas temos uma base familiar e uma rede de amigos muito acolhedoras. Sinto que eles se sentem seguros nessa estrutura. Meu maior receio era chegar o dia em que eles fossem para a escola e ter que lidar com algum tipo de preconceito, mas tivemos uma ótima receptividade por parte dos amiguinhos e dos pais dos alunos. Considero o respeito fundamental numa sociedade. Vivemos num país democrático, onde as diferenças existem e precisam ser respeitadas. Esse é o ponto chave. Na minha opinião, as configurações familiares embora diferentes comungam dos mesmos valores, que têm o princípio do amor acima de tudo”, considera.

Para a chefe do Centro de Apoio Psicossocial do TJPE, a psicóloga Nathalia Della Santa, a participação mais efetiva dos pais na criação e nos cuidados com os filhos atualmente, encorajando-os a participar e a demonstrar os seus sentimentos, pode resultar em futuras gerações de pais ainda mais presentes. “As crianças aprendem através de muitas maneiras e uma das mais importantes é o exemplo. Os pais e responsáveis são modelos para as crianças. Quando o pai participa de forma intensa dos cuidados com os filhos, conseguem nomear e expressar seus sentimentos, e regular suas emoções, ele está ensinando tudo isso aos filhos. A forma como a parentalidade dos pais é exercida possivelmente irá influenciar intensamente o exercício da parentalidade dos seus descendentes”, pontua.

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Texto: Ivone Veloso  |  Ascom TJPE
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