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Posso dizer que aprendi a viver melhor após o câncer!

O Outubro Rosa começa agora e é tempo de conscientização e prevenção! O que você faria ao descobrir que tem câncer de mama? Conheça a história de luta e superação da servidora do TJPE, Fabiana Souto Maior Lemos, que teve o diagnóstico da doença aos 42 anos. 

Fabiana é técnica judiciária do Tribunal desde 1997. Ela tem 45 anos, é casada e mãe de dois filhos. Atualmente, é lotada na Secretaria Judiciária do TJPE. 

Leia e inspire-se na história de Fabiana, repasse para suas amigas e faça a diferença para muitas mulheres! 

 

“Sei que o passado nos traz lembranças importantes, e que temos que viver com os olhos voltados para o futuro, mas é no presente que eu invisto mais as minhas energias. Poder viver o ‘hoje’ com saúde já me abastece de felicidade o suficiente para terminar o dia bem e pronta para começar tudo novamente”

Era 4 de janeiro de 2016, o primeiro dia útil após o recesso de final de ano do Tribunal. Depois de um réveillon maravilhoso, com a minha família na praia, eu voltei direto para trabalhar. Mas, antes, tinha marcado para fazer os meus exames médicos anuais. O mês de janeiro pra mim sempre foi sinônimo de prevenção: mamografia, ultrassom, exames de sangue, densintometria, etc... 

Lembro que já estava bem atrasada para o trabalho e que, portanto, tentava me comunicar com alguma colega de trabalho para justificar o meu atraso. Naquele momento, essa era uma enorme preocupação para mim. Eu mal sabia o quão insignificante isso se tornaria em poucos minutos. 

“Fabiana Souto Maior”, ecoou na sala de recepção.

Aliviada pelo fim da espera, eu quase corri para a sala de exames. Faltava pouco para eu ir embora... Quase que automaticamente deitei e o exame foi iniciado, mas a minha mente estava a mil, pensando no tantão de coisas que eu tinha que resolver naquele mês - material e fardamento escolar tinham prioridade, por exemplo, pois eu faria uma viagem em breve com a família e queria, ao voltar, já ter tudo resolvido...  

Então, o médico disse algo que não prestei atenção... Depois, ele repetiu “Senhora Fabiana, eu estou vendo uma imagem que não estou gostando. A senhora precisa levar esse exame ainda hoje para a sua mastologista!”. Aí tudo parou... Eu pensei: “Como assim mastologista?” De repente, como que se estivesse em um sonho, eu me senti meio anestesiada, lenta, e compreendi perfeitamente o que ele quis dizer: câncer de mama. E pensei “Não eram apenas exames de rotina? Eu nunca tive qualquer sintoma dessa terrível doença!”

Mas, antes que qualquer sentimento negativo tomasse conta de mim, eu compreendi que naquele momento uma fase muito difícil de minha vida estava sendo iniciada. Parecia que tinha virado a página de um livro...  Sentei na recepção e fiquei perdida em meus pensamentos por um bom tempo. O atraso para trabalhar agora não era mais problema. Comecei a conversar com Deus. Pensei logo em meus filhos (que, na época, tinham 15 e 7 anos de idade) e de como eu gostaria de poder vê-los crescer. Pedi a Deus que me desse essa alegria, que pelo menos o mais novo chegasse aos 15 anos para só depois eu morrer... E aí parei... Parei de pedir... Ao invés disso, a minha mente mostrava como eu tinha uma vida boa, feliz. Sempre tive pais muito amorosos e presentes. Quase tudo que eu quis na vida, eu pude ter. Nunca passei qualquer necessidade. Tinha um marido extraordinário e filhos lindos e saudáveis. Trabalhava com o que gostava e era remunerada por isso...

Então, ao invés de pedir, passei a agradecer por tudo isso. E comecei a sentir uma sensação de tranquilidade, como se Deus estivesse me lembrando que estaria comigo. Me senti confortada, abraçada. Não senti vontade nenhuma de chorar. Ao mesmo tempo, eu não conseguia acreditar que estava tão leve diante de um problema que sempre tive medo que acontecesse comigo, pois a minha avó morreu de câncer de mama. Esse momento tão especial em minha vida, essa sensação de conforto divino, foi algo único, indescritível, e me deu a oportunidade de sentir Deus ali comigo. Meu testemunho de fé aumentou imensamente!

“Qualquer situação que passamos nesta vida nos deixa lições - boas e ruins! Tudo o que nos acontece tem um propósito, um motivo e sempre aprendemos algo novo”

Com o resultado dos exames em mãos, eu marquei a consulta com a mastologista em dois dias. Não contei nada a ninguém, nem mesmo para o meu esposo. Eu preferi ir sozinha para a primeira consulta, pois queria ter certeza de que ninguém me esconderia nada. 

O tumor era muito pequeno, portanto fiquei dentro dos 95% de pessoas com chance de cura e, muito embora o tumor tivesse acometido apenas a mama direita, eu optei espontaneamente por retirar a mama esquerda também, ainda que saudável. Sabia que, para a minha tranquilidade psicológica, eu precisava disso. 

A cirurgia a qual me submeti (mastectomia bilateral) é considerada uma cirurgia de grande porte. Durou quase nove horas e contou com duas equipes médicas:

1ª) A mastologista, que retirou as duas mamas e verificou se havia ou não necessidade de esvaziar a axila (não foi necessário por não ter comprometido o linfonodo sentinela); 

2ª) o cirurgião plástico que implantou o expansor vazio que seria inflado semanalmente durante quatro meses para, posteriormente, fazer uma nova cirurgia em que seria substituído pelas próteses de silicone (esse procedimento foi o mesmo que a Angelina Jolie fez. E por isso até hoje faço piada de mim mesma dizendo que tenho um pedaço Hollywoodiano). 

Não foi necessário submeter-me à quimioterapia ou radioterapia (por conta do tumor ser tão pequeno). Mas faço hormonioterapia (tomo um comprimido diariamente) pelo período de cinco anos, quando então serei reavaliada.
Em minhas orações diárias, eu sempre agradeço muito a Deus por ter feito meus exames anualmente. Descobrir um tumor logo no início fez toda a diferença para o meu caso.   

Eu nunca reclamei pela situação que estava passando. Deus foi tão generoso comigo que me fazia sempre enxergar o quanto eu tinha sido abençoada em poder passar por esse problema, mas com um alto percentual de cura. Não conseguia ver de outra forma!

Obviamente, alguns momentos da doença foram muito delicados e tristes para mim, como, por exemplo, o pós-operatório, que posso dizer, sem sombra de dúvidas, que foi a pior fase da minha vida - tanto fisicamente quanto psicologicamente. Como sou alérgica a todos os analgésicos, eu senti muita dor e, psicologicamente, não fiquei bem, pois a visão que tinha do meu corpo após a retirada das mamas (as próteses só foram colocadas cinco meses depois) era difícil de aceitar. No entanto, como eu sabia que seria temporário, encarei dessa forma e o tempo passou rápido. Em julho de 2016, eu já estava com as minhas próteses definitivas.

Posso dizer que aprendi a viver melhor após o câncer! Ter essa doença é algo que todos temem, mas qualquer situação que passamos nesta vida nos deixa lições - boas e ruins! Tudo o que nos acontece tem um propósito, um motivo e sempre aprendemos algo novo. O câncer é algo terrível que ninguém quer vivenciar, mas quando ficamos tão vulneráreis enxergamos a vida de outra forma. Coisas simples e comuns como um dia de sol adquirem um valor muito mais significativo. Hoje, eu não me desgasto mais com situações que antes me deixariam contrariada. 

Sinto um enorme desejo em divulgar o que passei para que outras mulheres saibam que o câncer não é uma sentença de morte! Por isso, todo mês de outubro eu realizo palestras gratuitas, contando a minha história e alertando acerca da importância da realização periódica dos exames que detectam o câncer de mama em sua fase inicial. 

Se eu pudesse fazer um pedido a todas as servidoras do nosso Poder Judiciário, eu pediria que colocassem como prioridade cuidar da sua saúde, que não deixem de realizar os seus exames de rotina. A medicina nos disponibiliza técnicas modernas que identificam o início de um tumor e que nos dá 95% de chance de cura! É um percentual muito alto e devemos usar isso em nosso benefício. 

“A única coisa que precisamos fazer é realizar os nossos exames com a periodicidade necessária. Vejo muitos casos de mulheres que, por medo, adiam - e nem sequer fazem - seus exames. Isso, na maioria das vezes, torna o tratamento mais complicado e sofrido, pois os tumores crescem rapidamente e, portanto, é necessário o prolongamento do tratamento”, afirma. 

Para saber mais da história de Fabiana, confira o seguinte vídeo. 

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Texto: Fabiana Carla Canuto Souto Maior Lemos
Fotos: Arquivo Pessoal