Poesias

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Prisão Perpétua

Na poesia Prisão Perpétua, Giuseppe Mascena, vencedor do último Concurso Literário do TJPE, na categoria poesia, discorre sobre o sistema prisional brasileiro ter se tornado uma fábrica de maldades profissionais.

“O sistema faz com que as pessoas odeiem os criminosos e esses criminosos somente voltam piores para a sociedade, revoltados e sem chance de melhora. O problema é odiar as pessoas e não a falta de medidas necessárias”, destaca.

Giuseppe Mascena trabalha na Diretoria Cível do 1º Grau e gosta de escrever sobre o que acontece todos os dias e passa despercebido aos olhares.

 

Prisão Perpétua

O sol doeu na sua cabeça
Aquele muro que tanto quis pular,
Agora, estava escancarado. Portões abertos. Morria de medo de não sair daqueles muros do presídio.
Agora sentiu medo quando fechou o portão que o prendia.
Por isso o sol doeu. Perdeu a prática com o sol
Era muita luz vinda do sol
E olhe que o sol sempre foi a sua praia
Corria no sol quando criança. Corria do sol quando adolescente.
Seu olho esquerdo sentiu um calor diferente. De sol
Desde que o arrancaram, ficou sensível
Por isso sente muito. Principalmente medo
Medo de que tivessem medo por ter perdido um olho. O povo pensa que quem perde olho é bandido. Nem se pergunta quem arranca. Pensam que um olho só só vê vingança. Quem comete um crime será sempre culpado. É como se pena fosse paga pela metade e a outra ficou fiado
Tudo é novo. O sol. O seu tamanho. Seu medo
Do lado de fora tudo é confuso. Ninguém acredita na justiça mas acham justo quando alguém é condenado. Na injustiça de sentença que o condenou a 22 anos é que ninguém acredita mesmo
É muita novidade
O novo é sempre aprendizado
Há aprendizado que humilha
Aprendeu que será humilhado
E que aprenda a viver com esse fardo
Como nada é tão pesado. Morreu
Da vida dos seus
Procurou Deus. Achou pesado pagar pra pedir
Não morreu. Solidão não mata rápido
preferia o sol cronometrado do pátio do presídio
Lá, o medo tinha hora pra acabar,  
Lá tinha dez inimigos por metro quadrado
Mas todos previamente identificados
Lá lutar pra sobreviver era instinto mas nem sempre era selvagem
Lá alguns sabiam que tinha direito a ser chamado de humano