Entrevista

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Força de trabalho feminina: inspire-se na história de três gestoras do TJPE

Maria José Alves

Segundo a Organização Internacional de Trabalho (OIT), apesar de terem alcançado conquistas relevantes, as mulheres ainda têm menos espaço no mercado de emprego: elas representam 49% da força de trabalho, mas ocupam apenas 24% dos cargos de liderança no mundo. No entanto, essa não é a realidade do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), que, de acordo com levantamento da Secretaria de Gestão de Pessoas (SGP), tem no quadro funcional 8.248 servidores, sendo a maioria – 4.475 do sexo feminino – e, destas, 1.005 ocupam cargos ou designações com perfil de gestor na instituição.

Empoderar mulheres e promover a equidade de gênero em todas as atividades são garantias para o efetivo fortalecimento das economias; para a melhoria da qualidade de vida de mulheres, homens e crianças; e para o desenvolvimento sustentável. Ciente do papel das mulheres para o crescimento das economias e para o desenvolvimento humano, a ONU Mulheres e o Pacto Global criaram os Princípios de Empoderamento das Mulheres

Para assegurar cada vez mais espaços às mulheres em todas as esferas da Justiça, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) instituiu a Política Nacional de Incentivo à Participação Feminina no Poder Judiciário, em setembro de 2018. O sistema de fomento à equidade de gênero nasceu por meio da Resolução CNJ 255/2018 e estabelece uma série de diretrizes. A norma incumbiu a todos os Tribunais e Conselhos do Judiciário o objetivo de promover e incentivar a participação de mulheres nos cargos de chefia e assessoramento, em bancas de concurso e como expositoras em eventos institucionais. 

Atenta à realidade das mulheres e como forma de inspirar mais colegas do Judiciário pernambucano, a Conecta conversou com três servidoras da instituição que ocupam cargos de chefia. Maria José Alves, tem 64 anos e é diretora de Documentação Judiciária (Didoc), unidade ligada à Secretaria Judiciária (Seju); Maria das Graças Almeida tem 54 anos e é secretária adjunta de Gestão de Pessoas (SGP); e Juliana Neiva, com 45 anos, é secretária de Tecnologia da Informação e Comunicação (Setic).

Conecta: Fale sobre o cargo que ocupa no TJPE e quais as suas principais competências e responsabilidades.

Maria José: Com muito orgulho e satisfação faço parte do quadro de servidores deste Poder desde o ano de 1989 e agradeço imensamente a todos os chefes e colegas que comigo se esforçaram e aos que atualmente, se esforçam para que possamos prestar um serviço produtivo e eficiente. Assumi a chefia da Diretoria de Documentação Judiciária em 2008 e foi um grande desafio para mim. No início, fiquei receosa de não dar conta do recado, porém, os desafios sempre me atraíram, pois são grandes oportunidades de crescimento.

A Diretoria de Documentação tem como competência planejar, organizar e controlar a execução das atividades inerentes à Jurisprudência e à Publicação, à Taquigrafia, ao Memorial da Justiça, ao Arquivo Geral e às Bibliotecas do TJPE: Desembargador Alexandre Aquino e do Centro Integrado da Criança e do Adolescente (Cica). É uma diretoria com uma enorme estrutura organizacional, porém, as maiores responsabilidades pelo bom desempenho dos trabalhos recaem sobre as gerências e consequentemente sobre as chefias de cada unidade. Cabe a mim a administração geral.

Graça: Há cinco anos, ocupo o cargo em comissão de secretária adjunta de Gestão de Pessoas do TJPE. Apesar de não estar na titularidade da secretaria, devido à necessidade de assumir eventualmente tal papel, bem como na perspectiva de auxiliar o secretário titular, entendo ter as mesmas competências e responsabilidades. Sendo que, dentre as várias funções, eu destacaria a missão propriamente dita de atuar na condição de facilitadora no alinhamento permanente da gestão de pessoas com a estratégia do Poder Judiciário de Pernambuco.

Juliana: A Secretaria de Tecnologia da Informação e Comunicação tem como principais competências planejar, coordenar e dirigir as atividades relacionadas a: desenvolvimento, implantação e sustentação dos sistemas de informação desenvolvidos internamente ou adquiridos; atendimento de usuários internos e externos para solução de incidentes e problemas relativos aos serviços de tecnologia da informação ofertados; prospecção de novas tecnologias, visando a atualização, inovação e melhoria contínua dos serviços prestados; planejar, operacionalizar e promover a melhoria contínua dos recursos de infraestrutura tecnológica, serviços de telefonia e conectividade; promover a gestão dos contratos relacionados à aquisição de bens e serviços de tecnologia da informação; além de promover a gestão de projetos, processos e política de segurança da informação.

Graça Almeida

Conecta: Sua chefia gerencia quantos servidores? Quais os principais desafios do setor e o que vocês fazem para superá-las?

Maria José: Atualmente, a Didoc conta com um quadro de 98 servidores efetivos e 44 funcionários terceirizados. Parece muito, porém, ainda não é o suficiente em face do grande volume de serviços realizados no âmbito da diretoria. Estamos, há algum tempo, vivenciando a falta de recursos financeiros não só neste Poder, mas em todos os órgãos da Administração Pública. Muitas são as dificuldades enfrentadas para administrar com responsabilidade e implementar os nossos projetos. Entretanto, não podemos parar, temos que nos adaptar e trabalhar com os recursos que nos são oferecidos, sejam eles humanos, materiais ou financeiros.

Graça: A equipe da SGP é composta por cerca de 170 servidores, distribuídos entre as diretorias de Desenvolvimento Humano, Gestão Funcional e de Saúde, além do Núcleo de Recepção, do Núcleo de Arquivo de Documentos Funcionais e da Junta Médica. Uma das principais dificuldades enfrentadas no dia a dia é a diversidade de serviços desempenhados frente à velocidade dos constantes processos de mudanças, mas estamos conseguindo acompanhar essa realidade com esforço, criatividade e apoio de todos os setores.

Juliana: Aproximadamente 200 servidores. E, hoje, a principal dificuldade enfrentada é equilibrar o tempo de resposta da Setic às demandas dos usuários. A tecnologia à mão das pessoas torna-as cada vez mais dependentes e ao mesmo tempo exigentes em relação ao tempo de resposta esperado. Além disso, a área de tecnologia está em constante mudança de conceitos, paradigmas e plataformas tecnológicas e precisamos manter o corpo de servidores capacitados e motivados a absorverem as inovações emergentes. O que procuro fazer é estar perto da equipe, de mãos dadas para enfrentar os desafios do dia a dia e passando para eles a importância do trabalho de cada um, além de procurar ser uma facilitadora na instituição, promovendo a melhor comunicação possível entre as áreas demandantes e a Setic.

 

Conecta: Além de servidora do TJPE, você desempenha dupla jornada como mãe? Se sim, como você faz para conciliar suas funções?

Maria José: O fato de ser mulher e ter dupla jornada de trabalho sempre foi para mim um grande desafio. Posso afirmar que sempre tive tripla jornada e com certeza não sou a única. Existem milhares de mulheres nas mesmas condições. No entanto, somos mulheres: negras, brancas, pardas, de todas as cores, não importa, somos mulheres fortes, guerreiras, companheiras, mães, avós, incansáveis trabalhadoras e sempre dispostas a lutar pelo bem estar de nossas famílias.

Posso dizer com tranquilidade que sou muito feliz e abençoada por Deus. Ele quis que eu nascesse mulher e com o dom da maternidade. Tenho quatro filhos e oito netos, por enquanto... Quando vim trabalhar no Tribunal, meus filhos eram ainda pequenos e foi um dos maiores desafios que precisei enfrentar, pois precisava trabalhar.

Graça: Tenho duas filhas, Maria Eduarda, de 25 anos, e Maria Gabriela, de 22 anos. Com as meninas crescidas e encaminhadas, hoje já é mais tranquilo administrar a dupla jornada, pois disponho de mais tempo e o utilizo para investir nos meus projetos pessoais e, consequentemente, melhoria da qualidade de vida.

Juliana: Tenho duas filhas maravilhosas: Marcela, de 17 anos, e Alice, de 11 anos. Ser mãe sempre foi o meu maior desejo. Sempre fiz questão de acompanhar a vida de minhas filhas em todos os aspectos. Apesar de trabalhar bastante, sou uma mãe muito presente, daquelas que ouvem os relatos diários e acompanha a vida escolar por completo, todos os dias.

Aprendi com minha mãe desde cedo que a mulher pode ser mãe e profissional, pois ela teve quatro filhos e nunca deixou de trabalhar e de ter sua própria carreira. Então, segui seu exemplo e procuro passar o mesmo legado para minhas filhas. Claro que não faço tudo sozinha, pois meu marido compartilha comigo as funções em casa e também conto com uma grande equipe que trabalha duro junto comigo na Setic.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Juliana Neiva

Conecta: Quais as principais dicas vocês podem passar para as colegas do TJPE crescerem na carreira e ao mesmo tempo serem felizes como mulheres?

Maria José: Pelos longos anos de trabalho neste Tribunal, obviamente conheci grandes mulheres. Também tive oportunidade de observar o crescimento profissional de muitas delas que, com garra e perseverança, conseguiram alcançar os mais altos cargos deste Poder. As que, por opção, resolveram permanecer nos mesmos postos de trabalho, são igualmente importantes e conscientes do papel que desempenham para que o TJPE possa prestar bons serviços aos seus jurisdicionados.

Por fim, posso acrescentar que tenho muito orgulho das mulheres que escolhi para fazerem parte da minha equipe, todas com suas duplas ou triplas jornadas, mas muito inteligentes e comprometidas com o trabalho. Portanto, o resultado positivo de nosso trabalho deve-se ao fato de que todos os servidores lotados no âmbito desta Diretoria, mulheres ou homens, atuam de forma integrada para que possamos atingir os nossos objetivos. 

Graça: O primeiro ponto é apropriar-se da função que você escolheu, de servir ao público. E cumprir sua missão com comprometimento, busca contínua de aperfeiçoamento, descobrir novas habilidades, cuidar das relações interpessoais, estar atenta às exigências da sociedade atual, às transformações das relações de trabalho e aos avanços tecnológicos. Para também serem felizes como mulheres, a dica é autoconhecer, respeitando os seus limites, estabelecer metas profissionais e pessoais e se empoderar, sabendo que somos capazes de alcançar o que desejamos.

Juliana: Eu amo o meu trabalho! Sinto-me motivada todos os dias quando saio para trabalhar, porque sei que encontrarei uma equipe dedicada, comprometida, competente e com quem convivo de forma leve e saudável. Os desafios diários, apesar de muitas vezes, me deixarem cansada, parecem que funcionam como molas propulsoras na minha motivação pessoal. Fazer o que gosta profissionalmente é muito importante para crescer na carreira, mas o mais importante é encontrar o equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional, sem se angustiar ou se cobrar demais. Temos sempre que ter nossas próprias prioridades e pedir ajuda, quando for preciso. Outra dica é nunca parar de estudar e obter novos conhecimentos. E o mais importante: nunca, jamais desistir!

 

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Edição: Priscilla Marques
Fotos de Maria José e Graça (Assis Lima | Ascom TJPE)
Foto de Juliana Neiva: Divulgação