Perfil

Voltar

Servidor de Orobó ensina como enxergar o mundo com os olhos do coração

Quantas pessoas e histórias inspiradoras existem no TJPE? Às vezes, basta olhar para o lado, conversar  e ouvir o colega para aprender sobre as coisas simples, porém essenciais, da vida. O servidor Júlio César Aguiar Barreto, de 24 anos, é deficiente visual e é um grande exemplo para todos os que fazem a instituição. Conheça um pouco da história de Júlio e abra os olhos para enxergar o melhor que cada um tem e pode oferecer ao mundo.

 

Motivação

“O que me move é a superação de obstáculos e levar a minha história para outras pessoas com algum tipo de deficiência. Muitas vezes, algumas pessoas, por não terem sido estimuladas a enfrentar a sociedade, acabam por se conformar em ficar em casa dependendo dos outros - coisa que eu nunca quis”. Esta é a motivação do técnico judiciário do TJPE, lotado na Vara Única de Orobó.

 

Família

Natural de Campina Grande, na Paraíba, mas criado na zona rural do Município de Casinhas, em Pernambuco, Júlio César é filho de pai agricultor e de mãe professora de História. “Minha família é bem tradicional, católica e bastante unida: eles são o meu tripé de sustentação”, compartilha.

 

Júlio César também é irmão de João Paulo, que tem microcefalia. “Na prática, o meu irmão não nos dá trabalho. No entanto, João Paulo precisa de auxílio para usar o banheiro, se alimentar e também que brinquemos com ele”, conta Júlio. 

 

 

A descoberta da deficiência

Júlio relata que a descoberta do problema visual aconteceu durante a infância, quando os seus parentes e amigos perceberam que ele apresentava dificuldades em encontrar pequenos objetos no chão. “Um dia, na quarta série, fizemos um círculo na sala de aula. Como eu sempre ficava na primeira carteira, estava enxergando o quadro, mas neste dia, fiquei do outro lado e enxerguei tudo com muita dificuldade”, lembra.

Na ocasião, Júlio foi levado ao Hospital de Olhos de Pernambuco, onde foi diagnosticado com retinose pigmentar. Esta doença faz com que as células fotorreceptoras da retina se degenerem aos poucos, fazendo o paciente perder a visão ao longo do tempo. Hoje, ele não enxerga praticamente mais nada. 

Frustração e conquistas

"Fiz uma graduação em Comunicação Social, na Universidade Estadual da Paraíba. Agora, eu estou quase na metade de outra, no 4º período de Direito. Também prestei concursos públicos, fui aprovado no TJPE e trabalho normalmente, como qualquer servidor", fala Júlio.

“Costumo dizer que a minha grande frustração é não poder dirigir. De resto, fiz diversas adaptações ao longo da vida e, com o auxílio de tecnologias assistivas, como o NonVisual Desktop Access (NVDA) e o Voice Over, consegui me virar bem”, diz. 

Júlio também afirma: “A deficiência traz algumas dificuldades. Mas, diante do cenário em que sei de sua irreversibilidade, cabe me adaptar às mais diversas situações que eu venha a enfrentar”, destaca Júlio.

 

Preconceito  e inclusão

“A nossa sociedade é preconceituosa. As pessoas não conhecem as diversas tecnologias que permitem ao deficiente visual levar uma vida independente. Fui muitas vezes subestimado: na universidade, no trabalho, na vida, enfim. Mas, quem me conhece bem, sabe de meus limites e possibilidades e entende que todos somos seres humanos, cada um com suas limitações, falhas e qualidades também”, ressalta Júlio. 

O servidor participa com frequência de fóruns, colóquios, simpósios e demais eventos voltados para a temática da inclusão. Júlio César foi delegado do Estado de Pernambuco na IV Conferência Nacional de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência em Brasília, no ano de 2016. Ele também  já realizou palestras em algumas escolas da Região de Orobó. 

 

A trajetória no TJPE 

“Fui nomeado aos 19 anos de idade. A primeira vez que entrei no Fórum, já foi para trabalhar. No ínicio, minha escolha foi mais para ter uma fonte de renda e ajudar a minha família. Mas, com o passar dos anos, fui me apaixonando pelo trabalho, tanto que, mesmo sendo graduado em Comunicação Social, optei pelo Direito, graduação que curso no momento”, conta.

Servidor do Judiciário pernambucano desde fevereiro de 2013, Júlio trabalha a maior parte do tempo com Processo Judicial Eletrônico (PJe). Ele cumpre despachos, decisões e sentenças; faz minutas para o magistrado; atende ao público e atua também como conciliador, desde 2016. 

“Costumo brincar que, quando cheguei ao TJPE, havia um certo receio de alguns colegas em me confiar atividades para realizar no trabalho. Hoje em dia, eu tenho atribuições até demais. Mas eu gosto, pois me faz sentir peça importante dentro do Tribunal”, destaca.

Justiça

“Muitos teóricos tentam descrever o que seria justiça, mas ao meu ver, ainda não temos uma definição satisfatória. Para mim, justiça é igualdade de condições entre as pessoas. É a certeza de agir de determinada forma sabendo que este proceder é correto. É olhar ao seu redor e sentir que as pessoas estão vivendo em paz, convivendo com suas diferenças e se respeitando mutuamente”, define o servidor do Judiciário.

 
Projeto de vida
 
O desembargador do Tribunal Regional do Trabalho do Paraná, Ricardo Tadeu, é a maior inspiração de Júlio. O magistrado também é deficiente visual e chegou ao cargo em um período que não tinha tantas tecnologias para auxiliá-lo. “Meu grande sonho é me tornar magistrado. Inclusive, eu já estou estudando muito para atingir este objetivo”, conta.
 
Hobby e lazer
 
“Eu sou mochileiro! Gosto de pegar minha cargueira e conhecer o mundo. Inclusive, três de minhas viagens, eu fiz sozinho: Maranhão, Ceará e interior de São Paulo. Não tenho um lugar favorito, mas sim muitos lugares que ainda quero conhecer”.
 
Júlio César gosta também de literatura nacional, de filmes de ficção científica e de se reunir com a família.
 
 
 
Inspiração para as pessoas (com deficiência ou não)

“Acredito que alguém com deficiência visual pode olhar para a minha história e entender que é possível sair do lugar comum e buscar a realização de seus sonhos. Aconselho as pessoas com deficiência, que se sentem à margem da sociedade, a fugirem ‘da caverna’ do isolamento e da tristeza. O mundo é tão grande, tão bonito, tem tanta história para ser conhecida e para ser contada, que nem conseguimos imaginar... Não vale a pena se entristecer, pensando naquilo que os outros pensam de você. Eles não sentem suas dores e nem  pagam as suas contas. Meta a cara no mundo e seja feliz do seu jeito!”, conclui o servidor do TJPE.
 
........................................................................................................................................................
Texto: Júlio César | Comarca de Orobó
Edição e Revisão: Priscilla Marques | Ascom TJPE
Fotos 1, 2, 3, 4, 5, 8 e 10: Arquivo Pessoal
Fotos 6, 7 e 9: Maria Terezinha Aguiar de Lima Brito | Comarca de Orobó